segunda-feira, 17 de maio de 2010


Aviso da Lua que Menstrua


Moço, cuidado com ela!

Há que se ter cautela com esta gente que menstrua...

Imagine uma cachoeira às avessas:

cada ato que faz, o corpo confessa.

Cuidado, moço às vezes parece erva,

parece hera cuidado com essa gente que gera

essa gente que se metamorfoseia

metade legível, metade sereia

Barriga cresce, explode humanidade

se ainda volta pro lugar que é o mesmo lugar

mas é outro lugar, aí é que está:

cada palavra dita, antes de dizer, homem, reflita...

Sua boca maldita não sabe que cada palavra é ingrediente

que vai cair no mesmo planeta panela.

Cuidado com cada letra que manda pra ela!

Tá acostumada a viver por dentro,

transforma fato em elementoa tudo refoga, ferve, frita

ainda sangra tudo no próximo mês.

Cuidado moço, quando cê pensa que escapou é que chegou a sua vez!

Porque sou muito sua amiga é que tô falando na "vera"

conheço cada uma, além de ser uma delas.

Você que saiu da fresta dela delicada força quando voltar a ela.

Não vá sem ser convidadoou sem os devidos cortejos...

Às vezes pela ponte de um beijojá se alcança a

"cidade secreta"a Atlântida perdida.

Outras vezes várias metidas e mais se afasta dela.

Cuidado, moço, por você ter uma cobra entre as pernas

cai na condição de ser displicente diante da própria serpente.

Ela é uma cobra de avental.Não despreze a meditação doméstica.

É da poeira do cotidiano que a mulher extrai filosofia

cozinhando, costurando e você chega com a mão no bolso

julgando a arte do almoço: Eca!...Você que não sabe onde está sua cueca?

Ah, meu cão desejado tão preocupado em rosnar, ladrar e latir

então esquece de morder devagar esquece de saber curtir, dividir.

E aí quando quer agredir chama de vaca e galinha.

São duas dignas vizinhas do mundo daqui!

O que você tem pra falar de vaca?

O que você tem eu vou dizer e não se queixe:VACA é sua mãe.

De leite.

Vaca e galinha...ora, não ofende. Enaltece, elogia:

comparando rainha com rainha óvulo, ovo e leite

pensando que está agredindo que tá falando palavrão imundo.Tá, não, homem.

Tá citando o princípio do mundo!


domingo, 25 de abril de 2010

Trovas inéditas de Benedito Cunha Melo



À Sempre-Viva, em verdade,
Não deu perfume o Senhor
,Para não ser a vaidade
Sempre viva numa flor.


Quando eu morrer, trovadores,
Se me tendes, como irmão,
Enchei, enchei, como flores,
De trovas o meu caixão.



Senhor: tranqüilas e mansas,
As últimas tardes minhas,
Vendo, no pátio, crianças,
Vendo, no azul, andorinhas...


A vida de São Francisco
Foi um poema à pobreza:
Trocou os bens pelo Bem,
Sua única riqueza.





Venho de um mundo distante,
Venho de um mundo acabado,
Onde deixei, soluçante,
O último sonho enterrado.


Fez lembrar-me a voz do grilo,
Noite a dentro; aqui, ali,
A paz de um mundo tranqüilo,
Em que já cri... cri... cri... cri...

sábado, 16 de janeiro de 2010



POEMA ABANDONADO

Um poema abandonado
Numa página qualquer
Nunca d´ antes então lembrado
Como um velho bem-me-quer


Um poema enclausurado
Em sua linha diacrónica
Tanto tempo ali parado
Sua cegueira já é crônica


Rasgue o lacre grite o verso
Que o poema transcendeu
Esse sonho é tão perverso


Foi você quem concebeu
Malfadado beijo inverso
O poema aconteceu.

Julio Costa

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010


XIII


"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda a noite, enquanto

A via láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"

E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas."


Olavo Bilac

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010


Soneto de Fidelidade

De tudo ao meu amor serei atento

Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto

Que mesmo em face do maior encanto

Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento

E em seu louvor hei de espalhar meu canto

E rir meu riso e derramar meu pranto

Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure

Quem sabe a morte, angústia de quem vive

Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):

Que não seja imortal, posto que é chama

Mas que seja infinito enquanto dure.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009


Texto para uma separação


Olhe aqui, olhos de azeviche
Vamos acertar as contas
porque é no dia de hoje
que cê vai embora daqui...
Mas antes, por obséquio:
Quer me devolver o equilíbrio?
Quer me dizer por que cê sumiu?
Quer me devolver o sono meu doril?
Quer se tocar e botar meu marcapasso pra consertar?
Quer me deixar na minha?
Quer tirar a mão de dentro da minha calcinha?
Olhe aqui, olhos de azeviche:
Quer parar de torcer pro meu fim
dentro do meu próprio estádio?
Quer parar de saxdoer no meu próprio rádio?
Vem cá, não vai sair assim...
Antes, quer ter a delicadeza de colar meu espelho?
Assim: agora fica de joelhos
e comece a cuspir todos os meus beijos.
Isso. Agora recolhe!
Engole a farta coreografia destas línguas
Varre com a língua esses anseios
Não haverá mais filho
pulsações e instintos animais.
Hoje eu me suicido ingerindo
sete caixas de anticoncepcionais.
Trata-se de um despejo
Dedetize essa chateação que a gente chamou de desejo.
Pronto: última revista
Leve também essa bobagem
que você chamou
de amor à primeira vista.
Olhos de azeviche, vem cá:
Apague esse gosto de pescoço da minha boca!
E leve esses presentes que você me deu:
essa cara de pau, essa textura de verniz.
Tire também esse sentimento de penetração
esse modo com que você me quis
esses ensaios de idas e voltas
essa esfregação
esse bob wilson erotizado
que a gente chamou de tesão.
Pronto. Olhos de azeviche, pode partir!
Estou calma. Quero ficar sozinha
eu co'a minha alma. Agora pode ir.
Gente! Cadê minha alma que estava aqui?
Elisa Lucinda

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009


Vida É o amor existencial.

Razão É o amor que pondera.

Estudo É o amor que analisa.

Ciência É o amor que investiga.

Filosofia É o amor que pensa.

Religião É o amor que busca a Deus.

Verdade É o amor que eterniza.

Ideal É o amor que se eleva.

É o amor que transcende.

Esperança É o amor que sonha.

Caridade É o amor que auxilia.

Fraternidade É o amor que se expande.

Sacrifício É o amor que se esforça.

Renúncia É o amor que depura.

Simpatia É o amor que sorri.

Trabalho É o amor que constrói.

Indiferença É o amor que se esconde.

Desespero É o amor que se desgoverna.

Paixão É o amor que se desequilibra.

Ciúme É o amor que se desvaira.

Orgulho É o amor que enlouquece.

Sensualismo É o amor que se envenena.

Finalmente, o ódio, que julgas ser a antítese do amor, não é senão o próprio amor que adoeceu gravemente.

Francisco Cândido Xavier